Domingo, 1 de novembro de 2026
Frete e Custos

Como calcular tabela de frete: passo a passo com exemplo

Veja como calcular uma tabela de frete a partir dos custos fixos e variáveis, do peso cubado, das taxas adicionais e da margem, sem ficar abaixo do piso mínimo da ANTT.

Como calcular tabela de frete: passo a passo com exemplo
Neste conteúdo
  1. O que é uma tabela de frete e para que serve
  2. Os componentes do custo do frete
  3. Como calcular tabela de frete: passo a passo
  4. Exemplo prático de cálculo de frete por viagem
  5. Como montar a tabela de frete fracionado
  6. Erros comuns ao calcular a tabela de frete
  7. Dicas para manter a tabela competitiva e lucrativa
  8. Perguntas frequentes
  9. Conclusão

Para calcular uma tabela de frete, você precisa descobrir quanto custa rodar cada quilômetro com o seu veículo, somando os custos fixos (salários, seguro, depreciação, impostos do veículo) e os custos variáveis (combustível, pneus, manutenção). Depois multiplica esse custo pela distância da rota, incluindo o retorno vazio quando houver, e acrescenta despesas administrativas, taxas, tributos e a margem de lucro. Por fim, organiza os preços por faixa de distância, peso ou região e confere se nenhum valor fica abaixo do piso mínimo de frete definido pela ANTT. Abaixo está o passo a passo completo, com fórmulas e um exemplo numérico.

O que é uma tabela de frete e para que serve

A tabela de frete é a lista de preços que a transportadora ou o transportador autônomo usa para cotar serviços de forma rápida e coerente. Em vez de refazer a conta a cada pedido, você define valores por rota, por faixa de quilometragem, por faixa de peso ou por tipo de carga.

Ela tem duas funções principais: garantir que cada viagem cubra os custos e dê lucro, e dar ao cliente uma referência clara e previsível. Uma tabela mal calculada costuma gerar dois problemas opostos: preço alto demais, que espanta clientes, ou preço baixo demais, que faz a empresa trabalhar no prejuízo sem perceber.

Carga lotação x carga fracionada

Antes de começar, defina o tipo de operação, porque a lógica do cálculo muda:

  • Lotação (carga fechada): o veículo inteiro atende um único cliente. O preço normalmente é calculado por viagem, com base no custo por quilômetro.
  • Fracionada: várias cargas de clientes diferentes dividem o mesmo veículo. O preço é calculado por peso (real ou cubado), valor da mercadoria e região de destino, com taxas complementares.

Os componentes do custo do frete

O coração de qualquer tabela é o levantamento honesto dos custos. Use dados reais da sua operação, de preferência a média dos últimos meses, e não estimativas de memória.

Custos fixos

São os gastos que existem mesmo com o caminhão parado:

  • Salário do motorista e encargos trabalhistas (ou o pró-labore, no caso do autônomo);
  • Depreciação do veículo e do implemento;
  • Remuneração do capital investido (quanto o dinheiro renderia se não estivesse no caminhão);
  • Seguro do veículo e seguros de carga obrigatórios;
  • IPVA, licenciamento e taxas anuais;
  • Rastreamento, telefonia e sistemas de gestão;
  • Parcela do financiamento, se houver.

Custos variáveis

São os que crescem conforme o veículo roda:

  • Combustível (o maior peso na conta, em geral);
  • Arla 32, para veículos que utilizam;
  • Pneus, recapagens e câmaras;
  • Óleo, filtros, lubrificação e manutenção preventiva e corretiva;
  • Lavagem;
  • Diárias e alimentação do motorista em viagem, quando pagas por trecho.

Despesas indiretas, tributos e margem

Além do custo do veículo, a tabela precisa cobrir a estrutura da empresa (escritório, administrativo, contabilidade, comercial), os tributos sobre o faturamento e o lucro desejado. Esses itens normalmente entram como percentuais sobre o custo ou sobre o preço final.

Abastecimento de diesel em caminhão, principal custo variável do frete

Como calcular tabela de frete: passo a passo

Cálculo da tabela de frete em 6 etapas

1. Custo fixo/km

Custos fixos do mês divididos pelos km rodados no mês.

2. Custo variável/km

Combustível, pneus, manutenção e Arla por quilômetro.

3. Distância real

Ida, retorno vazio e tempo de carga e descarga.

4. Indiretos e taxas

Administrativo, GRIS, ad valorem e taxas de entrega.

5. Tributos e margem

Aplicação do markup divisor sobre o custo total.

6. Conferir o piso

Comparar com o piso mínimo da ANTT e ajustar faixas.

1. Calcule o custo fixo por quilômetro

Some todos os custos fixos de um mês e divida pela quilometragem média rodada no mesmo período.

Custo fixo por km = custos fixos mensais ÷ km rodados no mês

Atenção: se o caminhão roda pouco, o custo fixo por quilômetro sobe. Por isso, use a quilometragem que a operação realmente faz, e não a que você gostaria de fazer.

2. Calcule o custo variável por quilômetro

Para o combustível, divida o preço do litro pelo consumo médio do veículo carregado (km/l). Para pneus, divida o custo do jogo, incluindo recapagens, pela vida útil em quilômetros. Faça o mesmo com manutenção, óleo e Arla.

Custo de combustível por km = preço do litro ÷ consumo (km/l)

3. Defina a distância que realmente será cobrada

Use a rota real, por roteirizador ou pelo hodômetro de viagens anteriores, e não a distância em linha reta. Na carga lotação, pergunte-se: o caminhão volta carregado? Se a chance de frete de retorno é baixa, o custo do retorno vazio precisa estar no preço da ida, total ou parcialmente.

Inclua também o tempo de espera para carregar e descarregar. Horas paradas no cliente consomem custo fixo e jornada do motorista.

4. Some despesas indiretas e taxas

Aplique o percentual de despesas administrativas sobre o custo operacional. Esse percentual sai do seu próprio balanço: quanto a estrutura da empresa representa em relação ao custo de rodar a frota.

5. Aplique tributos e margem com markup divisor

Um erro clássico é somar o lucro como percentual sobre o custo e achar que ele vai sobrar no final. Como tributos incidem sobre o preço de venda, o caminho mais seguro é o markup divisor:

Preço do frete = custo total ÷ (1 − (% de tributos + % de margem))

Os tributos dependem do regime tributário da empresa e das regras de ICMS de cada estado na prestação interestadual ou intermunicipal. Esses percentuais devem ser definidos com o seu contador, pois variam conforme o enquadramento e a operação.

6. Compare com o piso mínimo de frete

No transporte rodoviário de cargas, a Política Nacional de Pisos Mínimos, instituída pela Lei 13.703/2018, determina que a ANTT publique valores mínimos de frete. O cálculo do piso usa coeficientes por tipo de carga e número de eixos: um coeficiente de custo de deslocamento (multiplicado pela distância) somado a um coeficiente de carga e descarga.

Piso mínimo = distância × coeficiente de deslocamento + coeficiente de carga e descarga

Os coeficientes são atualizados periodicamente, por isso consulte sempre a tabela vigente e a calculadora disponíveis no site da ANTT. Se o seu preço calculado ficar abaixo do piso aplicável, o valor da tabela precisa ser ajustado.

Exemplo prático de cálculo de frete por viagem

Os números abaixo são apenas ilustrativos, para mostrar a mecânica da conta. Substitua por dados reais da sua frota e por preços atuais da sua região.

  • Custos fixos mensais: R$ 20.000
  • Quilometragem média mensal: 10.000 km
  • Custo fixo por km: R$ 20.000 ÷ 10.000 = R$ 2,00/km
  • Combustível: preço hipotético de R$ 6,00/litro ÷ 2,5 km/l = R$ 2,40/km
  • Pneus, manutenção, Arla e lavagem: R$ 0,80/km
  • Custo variável por km: R$ 3,20/km
  • Custo total por km: R$ 5,20/km

Uma viagem de 500 km com retorno vazio soma 1.000 km rodados:

  1. Custo operacional: 1.000 × R$ 5,20 = R$ 5.200,00
  2. Despesas administrativas de 10%: R$ 520,00, totalizando R$ 5.720,00
  3. Tributos hipotéticos de 12% e margem de 15%: divisor = 1 − 0,27 = 0,73
  4. Preço do frete: R$ 5.720,00 ÷ 0,73 ≈ R$ 7.835,62

Pedágio não entra nessa conta como receita do transportador: pela Lei 10.209/2001, o embarcador deve antecipar o vale-pedágio separadamente do valor do frete. Depois do cálculo, ainda é preciso comparar o resultado com o piso mínimo da ANTT para o tipo de carga e o número de eixos.

Como montar a tabela de frete fracionado

Na carga fracionada, o preço não sai de uma viagem só, mas do rateio do custo de coleta, transferência e entrega entre vários volumes. A tabela costuma combinar alguns componentes tradicionais do mercado:

Componente O que cobre Como costuma ser cobrado
Frete-peso Custo de transportar a carga entre origem e destino Valor por faixa de peso (kg) e por região de destino
Frete-valor (ad valorem) Seguro e responsabilidade sobre a mercadoria Percentual sobre o valor da nota fiscal
GRIS Gerenciamento de risco: rastreamento, escolta, monitoramento Percentual sobre o valor da nota fiscal
Taxa de despacho / emissão Custo administrativo de cada conhecimento de transporte Valor fixo por documento
Taxas de dificuldade de entrega Restrições de horário, agendamento, área de risco ou acesso difícil Valor fixo ou percentual, conforme a condição

Peso real x peso cubado

Cargas leves e volumosas ocupam muito espaço e pouco peso. Para não perder dinheiro, a tabela deve cobrar pelo maior valor entre o peso real e o peso cubado.

Peso cubado = comprimento × largura × altura (em metros) × fator de cubagem

No rodoviário, o fator mais usado no mercado é 300 kg/m³, mas ele pode variar conforme o veículo e o acordo comercial. Exemplo: uma caixa de 0,50 × 0,40 × 0,40 m tem 0,08 m³. Multiplicando por 300, o peso cubado é 24 kg. Se a caixa pesa 10 kg na balança, o frete é calculado sobre 24 kg.

Organize por faixas

Para facilitar a cotação, divida a tabela em faixas de peso (por exemplo, até 10 kg, de 11 a 30 kg, de 31 a 50 kg e assim por diante) e cobre um valor por quilo excedente acima da última faixa. Faça o mesmo com as regiões: capital, interior próximo, interior distante e áreas de difícil acesso. Estabeleça também um frete mínimo, para que pequenas remessas não fiquem abaixo do custo de coleta e emissão do documento.

Caixas de tamanhos variados em armazém para cálculo de peso cubado

Erros comuns ao calcular a tabela de frete

  • Ignorar a depreciação: o caminhão perde valor todo mês. Quem não reserva esse custo descobre o problema só na hora de trocar o veículo.
  • Esquecer o retorno vazio: cobrar apenas a ida em rotas sem carga de volta é uma das causas mais frequentes de prejuízo.
  • Somar a margem sobre o custo: sem o markup divisor, os tributos acabam consumindo parte do lucro.
  • Usar consumo de catálogo: o consumo real com carga, relevo e trânsito costuma ser diferente do informado pelo fabricante.
  • Não cobrar peso cubado: cargas volumosas lotam o baú e pagam como se fossem leves.
  • Tabela congelada: diesel, pneus e salários mudam. Uma tabela sem revisão perde a validade rápido.
  • Desconsiderar tempo de espera: horas paradas em pátio de cliente custam dinheiro e precisam de regra clara de cobrança, como estadia.

Dicas para manter a tabela competitiva e lucrativa

  • Monte uma planilha com fórmulas: ao mudar o preço do diesel, toda a tabela se atualiza automaticamente.
  • Crie gatilhos de reajuste: defina com os clientes que variações relevantes de combustível geram revisão do frete.
  • Acompanhe o custo real por viagem: compare o que foi orçado com o que foi gasto e corrija as distorções.
  • Calcule a taxa de ocupação: na fracionada, o preço depende de quanto do veículo costuma ser ocupado. Quanto melhor a ocupação, mais competitivo pode ser o frete.
  • Use referências do setor: entidades como a NTC&Logística divulgam metodologias e índices de custo que ajudam a validar seus números.
  • Diferencie por tipo de carga: carga perigosa, frigorificada, granel ou de alto valor tem custos e riscos próprios e não deve seguir a mesma tabela da carga geral.

Perguntas frequentes

Qual é a fórmula básica para calcular frete?

Na carga lotação, a base é: custo por km (fixo + variável) multiplicado pela distância rodada, incluindo o retorno quando necessário. Sobre esse valor entram despesas administrativas, e o preço final é obtido dividindo o custo total por (1 − tributos − margem). Depois, confira o piso mínimo da ANTT.

O piso mínimo da ANTT vale para todo frete?

A política de pisos mínimos se aplica ao transporte rodoviário remunerado de cargas, com coeficientes por tipo de carga e número de eixos. Há regras específicas e atualizações periódicas, por isso a consulta deve ser feita diretamente no site da ANTT, que também oferece calculadora oficial.

O pedágio entra no valor do frete?

Não deveria. A legislação do vale-pedágio obriga o embarcador a antecipar o valor do pedágio de forma separada do frete. Na tabela, ele deve aparecer à parte.

Como calcular o frete de carga fracionada?

Calcule o peso taxável (o maior entre o peso real e o cubado), aplique o valor do frete-peso da faixa e região correspondentes e some o frete-valor, o GRIS, a taxa de despacho e as taxas de entrega aplicáveis. Respeite sempre o frete mínimo definido na tabela.

De quanto em quanto tempo devo revisar a tabela de frete?

Não existe prazo fixo, mas o ideal é revisar sempre que houver variação significativa de combustível, salários, pneus ou seguro, e fazer uma revisão completa ao menos uma vez por ano, comparando custos orçados e realizados.

Autônomo e transportadora calculam o frete do mesmo jeito?

A lógica é a mesma: custo fixo, custo variável, distância, tributos e margem. O que muda são os itens. O autônomo precisa incluir a própria remuneração como custo fixo, e a transportadora tem uma estrutura administrativa maior para ratear. Os tributos também variam conforme o enquadramento, por isso vale conversar com um contador.

Conclusão

A tabela de frete é tão boa quanto os números que entram nela. Com custo por quilômetro bem apurado, distância real, peso cubado, taxas bem definidas e margem calculada pelo markup divisor, você chega a preços que cobrem a operação e dão lucro. Para fechar, compare tudo com o piso mínimo vigente e revise a tabela com frequência.

Conteúdo informativo. Regras e valores podem mudar; confira sempre a norma vigente no órgão responsável, como ANTT, Contran e Receita Federal.

Tiago da Silva Cândido

Tiago da Silva Cândido é editor do LG Translog. Analista de SEO e produção de conteúdo, cuida da pauta, da apuração em fontes oficiais e da atualização dos guias sobre transporte de cargas e logística.

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