Para calcular uma tabela de frete, você precisa descobrir quanto custa rodar cada quilômetro com o seu veículo, somando os custos fixos (salários, seguro, depreciação, impostos do veículo) e os custos variáveis (combustível, pneus, manutenção). Depois multiplica esse custo pela distância da rota, incluindo o retorno vazio quando houver, e acrescenta despesas administrativas, taxas, tributos e a margem de lucro. Por fim, organiza os preços por faixa de distância, peso ou região e confere se nenhum valor fica abaixo do piso mínimo de frete definido pela ANTT. Abaixo está o passo a passo completo, com fórmulas e um exemplo numérico.
O que é uma tabela de frete e para que serve
A tabela de frete é a lista de preços que a transportadora ou o transportador autônomo usa para cotar serviços de forma rápida e coerente. Em vez de refazer a conta a cada pedido, você define valores por rota, por faixa de quilometragem, por faixa de peso ou por tipo de carga.
Ela tem duas funções principais: garantir que cada viagem cubra os custos e dê lucro, e dar ao cliente uma referência clara e previsível. Uma tabela mal calculada costuma gerar dois problemas opostos: preço alto demais, que espanta clientes, ou preço baixo demais, que faz a empresa trabalhar no prejuízo sem perceber.
Carga lotação x carga fracionada
Antes de começar, defina o tipo de operação, porque a lógica do cálculo muda:
- Lotação (carga fechada): o veículo inteiro atende um único cliente. O preço normalmente é calculado por viagem, com base no custo por quilômetro.
- Fracionada: várias cargas de clientes diferentes dividem o mesmo veículo. O preço é calculado por peso (real ou cubado), valor da mercadoria e região de destino, com taxas complementares.
Os componentes do custo do frete
O coração de qualquer tabela é o levantamento honesto dos custos. Use dados reais da sua operação, de preferência a média dos últimos meses, e não estimativas de memória.
Custos fixos
São os gastos que existem mesmo com o caminhão parado:
- Salário do motorista e encargos trabalhistas (ou o pró-labore, no caso do autônomo);
- Depreciação do veículo e do implemento;
- Remuneração do capital investido (quanto o dinheiro renderia se não estivesse no caminhão);
- Seguro do veículo e seguros de carga obrigatórios;
- IPVA, licenciamento e taxas anuais;
- Rastreamento, telefonia e sistemas de gestão;
- Parcela do financiamento, se houver.
Custos variáveis
São os que crescem conforme o veículo roda:
- Combustível (o maior peso na conta, em geral);
- Arla 32, para veículos que utilizam;
- Pneus, recapagens e câmaras;
- Óleo, filtros, lubrificação e manutenção preventiva e corretiva;
- Lavagem;
- Diárias e alimentação do motorista em viagem, quando pagas por trecho.
Despesas indiretas, tributos e margem
Além do custo do veículo, a tabela precisa cobrir a estrutura da empresa (escritório, administrativo, contabilidade, comercial), os tributos sobre o faturamento e o lucro desejado. Esses itens normalmente entram como percentuais sobre o custo ou sobre o preço final.

Como calcular tabela de frete: passo a passo
Cálculo da tabela de frete em 6 etapas
1. Custo fixo/km
Custos fixos do mês divididos pelos km rodados no mês.
2. Custo variável/km
Combustível, pneus, manutenção e Arla por quilômetro.
3. Distância real
Ida, retorno vazio e tempo de carga e descarga.
4. Indiretos e taxas
Administrativo, GRIS, ad valorem e taxas de entrega.
5. Tributos e margem
Aplicação do markup divisor sobre o custo total.
6. Conferir o piso
Comparar com o piso mínimo da ANTT e ajustar faixas.
1. Calcule o custo fixo por quilômetro
Some todos os custos fixos de um mês e divida pela quilometragem média rodada no mesmo período.
Custo fixo por km = custos fixos mensais ÷ km rodados no mês
Atenção: se o caminhão roda pouco, o custo fixo por quilômetro sobe. Por isso, use a quilometragem que a operação realmente faz, e não a que você gostaria de fazer.
2. Calcule o custo variável por quilômetro
Para o combustível, divida o preço do litro pelo consumo médio do veículo carregado (km/l). Para pneus, divida o custo do jogo, incluindo recapagens, pela vida útil em quilômetros. Faça o mesmo com manutenção, óleo e Arla.
Custo de combustível por km = preço do litro ÷ consumo (km/l)
3. Defina a distância que realmente será cobrada
Use a rota real, por roteirizador ou pelo hodômetro de viagens anteriores, e não a distância em linha reta. Na carga lotação, pergunte-se: o caminhão volta carregado? Se a chance de frete de retorno é baixa, o custo do retorno vazio precisa estar no preço da ida, total ou parcialmente.
Inclua também o tempo de espera para carregar e descarregar. Horas paradas no cliente consomem custo fixo e jornada do motorista.
4. Some despesas indiretas e taxas
Aplique o percentual de despesas administrativas sobre o custo operacional. Esse percentual sai do seu próprio balanço: quanto a estrutura da empresa representa em relação ao custo de rodar a frota.
5. Aplique tributos e margem com markup divisor
Um erro clássico é somar o lucro como percentual sobre o custo e achar que ele vai sobrar no final. Como tributos incidem sobre o preço de venda, o caminho mais seguro é o markup divisor:
Preço do frete = custo total ÷ (1 − (% de tributos + % de margem))
Os tributos dependem do regime tributário da empresa e das regras de ICMS de cada estado na prestação interestadual ou intermunicipal. Esses percentuais devem ser definidos com o seu contador, pois variam conforme o enquadramento e a operação.
6. Compare com o piso mínimo de frete
No transporte rodoviário de cargas, a Política Nacional de Pisos Mínimos, instituída pela Lei 13.703/2018, determina que a ANTT publique valores mínimos de frete. O cálculo do piso usa coeficientes por tipo de carga e número de eixos: um coeficiente de custo de deslocamento (multiplicado pela distância) somado a um coeficiente de carga e descarga.
Piso mínimo = distância × coeficiente de deslocamento + coeficiente de carga e descarga
Os coeficientes são atualizados periodicamente, por isso consulte sempre a tabela vigente e a calculadora disponíveis no site da ANTT. Se o seu preço calculado ficar abaixo do piso aplicável, o valor da tabela precisa ser ajustado.
Exemplo prático de cálculo de frete por viagem
Os números abaixo são apenas ilustrativos, para mostrar a mecânica da conta. Substitua por dados reais da sua frota e por preços atuais da sua região.
- Custos fixos mensais: R$ 20.000
- Quilometragem média mensal: 10.000 km
- Custo fixo por km: R$ 20.000 ÷ 10.000 = R$ 2,00/km
- Combustível: preço hipotético de R$ 6,00/litro ÷ 2,5 km/l = R$ 2,40/km
- Pneus, manutenção, Arla e lavagem: R$ 0,80/km
- Custo variável por km: R$ 3,20/km
- Custo total por km: R$ 5,20/km
Uma viagem de 500 km com retorno vazio soma 1.000 km rodados:
- Custo operacional: 1.000 × R$ 5,20 = R$ 5.200,00
- Despesas administrativas de 10%: R$ 520,00, totalizando R$ 5.720,00
- Tributos hipotéticos de 12% e margem de 15%: divisor = 1 − 0,27 = 0,73
- Preço do frete: R$ 5.720,00 ÷ 0,73 ≈ R$ 7.835,62
Pedágio não entra nessa conta como receita do transportador: pela Lei 10.209/2001, o embarcador deve antecipar o vale-pedágio separadamente do valor do frete. Depois do cálculo, ainda é preciso comparar o resultado com o piso mínimo da ANTT para o tipo de carga e o número de eixos.
Como montar a tabela de frete fracionado
Na carga fracionada, o preço não sai de uma viagem só, mas do rateio do custo de coleta, transferência e entrega entre vários volumes. A tabela costuma combinar alguns componentes tradicionais do mercado:
| Componente | O que cobre | Como costuma ser cobrado |
|---|---|---|
| Frete-peso | Custo de transportar a carga entre origem e destino | Valor por faixa de peso (kg) e por região de destino |
| Frete-valor (ad valorem) | Seguro e responsabilidade sobre a mercadoria | Percentual sobre o valor da nota fiscal |
| GRIS | Gerenciamento de risco: rastreamento, escolta, monitoramento | Percentual sobre o valor da nota fiscal |
| Taxa de despacho / emissão | Custo administrativo de cada conhecimento de transporte | Valor fixo por documento |
| Taxas de dificuldade de entrega | Restrições de horário, agendamento, área de risco ou acesso difícil | Valor fixo ou percentual, conforme a condição |
Peso real x peso cubado
Cargas leves e volumosas ocupam muito espaço e pouco peso. Para não perder dinheiro, a tabela deve cobrar pelo maior valor entre o peso real e o peso cubado.
Peso cubado = comprimento × largura × altura (em metros) × fator de cubagem
No rodoviário, o fator mais usado no mercado é 300 kg/m³, mas ele pode variar conforme o veículo e o acordo comercial. Exemplo: uma caixa de 0,50 × 0,40 × 0,40 m tem 0,08 m³. Multiplicando por 300, o peso cubado é 24 kg. Se a caixa pesa 10 kg na balança, o frete é calculado sobre 24 kg.
Organize por faixas
Para facilitar a cotação, divida a tabela em faixas de peso (por exemplo, até 10 kg, de 11 a 30 kg, de 31 a 50 kg e assim por diante) e cobre um valor por quilo excedente acima da última faixa. Faça o mesmo com as regiões: capital, interior próximo, interior distante e áreas de difícil acesso. Estabeleça também um frete mínimo, para que pequenas remessas não fiquem abaixo do custo de coleta e emissão do documento.

Erros comuns ao calcular a tabela de frete
- Ignorar a depreciação: o caminhão perde valor todo mês. Quem não reserva esse custo descobre o problema só na hora de trocar o veículo.
- Esquecer o retorno vazio: cobrar apenas a ida em rotas sem carga de volta é uma das causas mais frequentes de prejuízo.
- Somar a margem sobre o custo: sem o markup divisor, os tributos acabam consumindo parte do lucro.
- Usar consumo de catálogo: o consumo real com carga, relevo e trânsito costuma ser diferente do informado pelo fabricante.
- Não cobrar peso cubado: cargas volumosas lotam o baú e pagam como se fossem leves.
- Tabela congelada: diesel, pneus e salários mudam. Uma tabela sem revisão perde a validade rápido.
- Desconsiderar tempo de espera: horas paradas em pátio de cliente custam dinheiro e precisam de regra clara de cobrança, como estadia.
Dicas para manter a tabela competitiva e lucrativa
- Monte uma planilha com fórmulas: ao mudar o preço do diesel, toda a tabela se atualiza automaticamente.
- Crie gatilhos de reajuste: defina com os clientes que variações relevantes de combustível geram revisão do frete.
- Acompanhe o custo real por viagem: compare o que foi orçado com o que foi gasto e corrija as distorções.
- Calcule a taxa de ocupação: na fracionada, o preço depende de quanto do veículo costuma ser ocupado. Quanto melhor a ocupação, mais competitivo pode ser o frete.
- Use referências do setor: entidades como a NTC&Logística divulgam metodologias e índices de custo que ajudam a validar seus números.
- Diferencie por tipo de carga: carga perigosa, frigorificada, granel ou de alto valor tem custos e riscos próprios e não deve seguir a mesma tabela da carga geral.
Perguntas frequentes
Qual é a fórmula básica para calcular frete?
Na carga lotação, a base é: custo por km (fixo + variável) multiplicado pela distância rodada, incluindo o retorno quando necessário. Sobre esse valor entram despesas administrativas, e o preço final é obtido dividindo o custo total por (1 − tributos − margem). Depois, confira o piso mínimo da ANTT.
O piso mínimo da ANTT vale para todo frete?
A política de pisos mínimos se aplica ao transporte rodoviário remunerado de cargas, com coeficientes por tipo de carga e número de eixos. Há regras específicas e atualizações periódicas, por isso a consulta deve ser feita diretamente no site da ANTT, que também oferece calculadora oficial.
O pedágio entra no valor do frete?
Não deveria. A legislação do vale-pedágio obriga o embarcador a antecipar o valor do pedágio de forma separada do frete. Na tabela, ele deve aparecer à parte.
Como calcular o frete de carga fracionada?
Calcule o peso taxável (o maior entre o peso real e o cubado), aplique o valor do frete-peso da faixa e região correspondentes e some o frete-valor, o GRIS, a taxa de despacho e as taxas de entrega aplicáveis. Respeite sempre o frete mínimo definido na tabela.
De quanto em quanto tempo devo revisar a tabela de frete?
Não existe prazo fixo, mas o ideal é revisar sempre que houver variação significativa de combustível, salários, pneus ou seguro, e fazer uma revisão completa ao menos uma vez por ano, comparando custos orçados e realizados.
Autônomo e transportadora calculam o frete do mesmo jeito?
A lógica é a mesma: custo fixo, custo variável, distância, tributos e margem. O que muda são os itens. O autônomo precisa incluir a própria remuneração como custo fixo, e a transportadora tem uma estrutura administrativa maior para ratear. Os tributos também variam conforme o enquadramento, por isso vale conversar com um contador.
Conclusão
A tabela de frete é tão boa quanto os números que entram nela. Com custo por quilômetro bem apurado, distância real, peso cubado, taxas bem definidas e margem calculada pelo markup divisor, você chega a preços que cobrem a operação e dão lucro. Para fechar, compare tudo com o piso mínimo vigente e revise a tabela com frequência.
Conteúdo informativo. Regras e valores podem mudar; confira sempre a norma vigente no órgão responsável, como ANTT, Contran e Receita Federal.



